sábado, 6 de agosto de 2011

Língua Portuguesa

Sequencia Didatica Ensino Fundamental II

Aprendendo a fazer uso da pontuação


Bloco de conteúdo
Análise e Reflexão sobre a Língua e a Linguagem


Conteúdo


Introdução 
Sabe-se que durante muitos anos se ensinou pontuação através de regras gramaticais apenas, de forma descontextualizada , tornando o assunto desinteressante e prescritivo-normativo. Cabe ao professor oferecer aos alunos a possibilidade de observar o valor da pontuação dentro de enunciados lingüísticos, fazer comparações com outras formas de pontuar e avaliar os efeitos de significado que as diferentes maneiras podem conferir a estes mesmos enunciados. 
Para isso é preciso trabalhar com pequenos textos de diversos gêneros, fazer a observação de sua pontuação e a finalidade a que ela se destina ali (poemas, notícias, recados, cartas, textos de panfletos, anúncios, de publicidade etc.). 

Conteúdo(s) específico(s): 
- Conceito de pontuação aberta e pontuação fechada; 
- Conhecimento e utilização da pontuação segundo regras; 
- Reconhecimento da pontuação ou da falta de pontuação para se obter efeito estilístico; 
- Reconhecimento e emprego das diferentes formas de pontuação em diálogos. 

Ano
7º e 8º ano (ou 8º e 9º) 

Tempo estimado 
4 aulas 

Material necessário 
Textos escritos tendo como suporte fichas ou a tela do computador. 
Obras literárias completas. 
Poesias avulsas ou em antologias 

Desenvolvimento das atividades 
1. Proponha a leitura do poema Ouvir estrelas, de Olavo Bilac. 
Ouvir estrelas, de Olavo Bilac  

Ouvir estrelas

Ora, (direis) ouvir estrelas! 
Certo perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto... 

E conversamos toda a noite, enquanto 
A via láctea, como um pálio aberto, 
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, 
Inda as procuro pelo céu deserto. 

Direis agora: "Tresloucado amigo! 
Que conversas com ela? Que sentido 
Tem o que dizem, quando estão contigo?" 

E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 
Pois só quem ama pode ter ouvido 
Capaz de ouvir e de entender estrelas."


 2. Provoque uma discussão entre os alunos sobre a pontuação usada pelo poeta e seus efeitos nos versos; pergunte, por exemplo, que elementos do poema indicam que se trata de um diálogo; qual a diferença de ponto de vista entre o poeta e seu interlocutor. 
Peça que expliquem qual a importância dos parênteses no primeiro verso. 
O que sugere o uso das reticências no verso "E abro as janelas, pálido de espanto...? - Qual a condição indicada pelo poeta para se poder ouvir as estrelas e que sinal de pontuação nos sugere essa percepção ou sensação? Dessa forma, perceberão a importância da pontuação estilística, ou seja, utilizada para sugerir uma emoção, uma sensação, um sentimento. 

3.. Trabalhe com outros textos literários nos quais se encontrem efeitos da pontuação estilística. Podem ser apresentados em fichas, ou lidos em antologias, ou pesquisados na Internet e selecionados pelos próprios alunos etc. (o capítulo Velho diálogo de Adão e Eva , em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis é um bom exemplo para isso). A ausência de pontuação, em grande parte dos poemas, também é um recurso estilístico, pois muitas vezes a própria disposição dos versos sugere pausas, expressividade. 

4. Trabalhe, em seguida com a turma, em grupos, propondo que realizem a próxima atividade visando a garantir que as mensagens se tornem claras e objetivas, através do uso da pontuação adequada.

Leia o texto

A herança 
Um homem rico estando muito mal de saúde, pediu que lhe trouxessem papel e tinta. 
Escreveu o seguinte: 
Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do 
padeiro nada dou aos pobres . 
Deu o último suspiro antes de ter podido fazer a pontuação. A quem, afinal, deixava sua fortuna? 
Eram apenas quatro os citados. 
No dia seguinte, ao receberem o papel, cada um dos citados deu ao texto a pontuação e a interpretação que lhe favorecia. 

Reescreva o texto pontuando da mesma forma que eles. 
O sobrinho fez a seguinte pontuação: 
A irmã chegou em seguida e o pontuou assim: 
O padeiro pediu cópia do original e o deixou dessa forma: 
A notícia se espalhou pelas redondezas e um sabido homem representando os pobres deixou o texto desse jeito:


Após a realização da atividade, discuta com os alunos o uso das vírgulas, do ponto final, do ponto-e-vírgula e de outros sinais que tenham usado para concluir as mensagens. 
Registre as conclusões a respeito do uso desses sinais de pontuação. Depois de fazer isso, as convenções sobre o uso da pontuação ganharão significado, posto que realizadas dentro de um contexto e em verdadeira situação de uso. 

5.Leia um texto em prosa (um artigo de jornal ou um parágrafo, relativamente extenso), sem fazer pontuação alguma. Peça que relatem o que entenderam do que foi lido por você. O entendimento, seguramente, estará prejudicado. Esse exercício oral visa a estimular a tomada de consciência dos alunos quanto à necessidade da utilização dos sinais de pontuação para compreensão dos enunciados. Em seguida, distribua o texto a eles para que façam a necessária pontuação. Depois é preciso que leiam em voz alta para comparar e sentir a diferença entre as duas formas de enunciação. 

Pode ser feito o mesmo tipo de exercício com enunciados com interlocução para que pratiquem a pontuação do diálogo, em todas as suas variantes (com travessão no início das falas, depois das falas, sem travessão, entre outras). 

6. Use um trecho qualquer da obra Todos os Nomes, de José Saramago, (algum da página 61), onde se encontra uma pontuação completamente diferente da empregada como norma em português. É uma boa oportunidade para reflexão sobre a relação entre a prescrição da gramática normativa e a transgressão dessas regras para efeito estilístico, portanto, inovador. 

7.. Aproveite para lhes ensinar o que é pontuação aberta e pontuação fechada. 

Muitas vezes omite-se a pontuação, optando-se pela pontuação aberta. A utilização de recursos como disposição espacial dos elementos e das frases, a utilização das linhas, cores e marcadores, os espaços em branco etc., permitem identificar as partes do texto, sem necessidade de se pontuar, tornando, assim, o texto mais leve. 

A pontuação aberta é adotada especialmente nos seguintes casos: 
- nas manchetes e títulos da imprensa; 
- em títulos de artigos, ensaios, redações; 
- em partes de correspondências, especialmente comerciais datas, endereçamento, vocativo, assinatura; 
- na listagem de itens e outras partes de textos publicitários; 
- na listagem de itens em textos jornalísticos, técnicos. 

8. Nesse estágio, o professor poderá propor exercícios que sistematizem o emprego da pontuação. Deve utilizar textos completos (períodos, parágrafos e não frases isoladas). É preciso que as atividades tenham significado, estejam em um contexto para serem realizadas. 
Uma boa estratégia é trabalhar com as próprias produções dos alunos, coletivamente, em situações de reescrita e não apenas de correção, para que percebam como realizar os mesmos textos com uma pontuação diferente da original. 

Outra atividade interessante é pedir que os alunos ditem, uns para os outros, pequenas narrativas com diálogos (anedotas, conversas telefônicas, conversas de MSN) e as pontuem.. Depois devem discutir a pontuação usada, se normativa , se estilística etc. 

Avaliação 
A avaliação se dará coletivamente, em todos os momentos em que os alunos estiverem participando das discussões sobre pontuação e realizando exercícios, e individualmente, quando estiverem empregando a pontuação em produções escritas, de maneira prescritiva apenas ou de forma criativa para obter efeitos estilísticos.

Quer saber mais?
BIBLIOGRAFIA
BILAC, Olavo, In: Antologia dos Poetas Parnasianos, Manuel Bandeira, Rio de  Janeiro, Edições de Ouro, 1968. p.195 ASSIS, Machado: Memórias Póstumas de Brás Cubas, São Paulo, Moderna, 1983. SARAMAGO, José: Todos os Nomes, São Paulo- Companhia das Letras-1997 BASTOS, Lúcia K. e Maria A. de Mattos: A Produção Escrita e a Gramática,São Paulo, Martins Fontes, 1990 MOURA & Faraco: Gramática- São Paulo-Ática, 1999 GERALDI, João Wanderley e Beatriz Citelli: Aprender e ensinar com textos de alunos, S. Paulo, Cortez, 1997

TP4 - UNIDADE 16 - OFICINA XI

A escrita é compreendida como uma linguagem em si está relacionada, ligada, às práticas orais e de leitura.
Nas práticas de redação, o professor traz modelos para os alunos escreverem durante a aula ou levarem de tarefa, e o professor na maioria das vezes, corrige o texto pensando apenas nos aspectos formais da língua, deixando de lado aspectos como escolha do tema, a criatividade com que  o tema é trata do, a relação entre coesão e coerência no desenvolvimento do texto.  
     
Como o desenvolvimento da escrita depende da prática, é sugerido que as aulas sejam planejadas em sequências de atividades que valorizem a produção de significados eu tornam a escrita comunicativa.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cursistas Gestar II Língua Portuguesa


A GENTE SE ACOSTUMA

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o
Sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto
ser visto.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, Conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar mais coisas.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos peixes nos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no rosto e no corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar a vida que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de
si mesma.

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Marina Colasanti, Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.